Por Que O Ensino Da Língua Inglesa Em Escola Pública Não Funciona?


No livro “Inglês em escolas públicas não funciona? Uma questão, múltiplos olhares” (2011) leva-nos a refletir a respeito dos desafios ainda a serem superados no ensino de Língua Inglesa nas Escolas Públicas do Brasil. Os autores a partir de uma narrativa de um estudante de Escola Pública de classe social menos favorecida e inicialmente desmotivado com a possibilidade de se aprender Inglês na Escola Pública, discutem e apresentam argumentos suficientes para desmistificar uma crença generalizada na Educação Básica a de que os estudantes não precisam falar a Língua Inglesa, nem mesmo escrever, basta apenas ler alguns gêneros textuais. Os motivos mostrados são a falta de preparo dos professores quando saem das universidades e faculdades, a culpabilização, os recursos didáticos disponíveis nas escolas, as crenças de alunos, pais e educadores.

No capítulo “Lugares (im)possíveis de se aprender inglês no Brasil: crenças sobre aprendizagem de inglês em uma narrativa” de Ana Maria Ferreira Barcelos (2011) nos convida a reescrever essas histórias. Segundo a autora, foi o que motivou a escrita deste texto, seria responder as perguntas de conclusão “Que outras histórias diferentes sobre a aprendizagem de línguas podemos contar? Por que não temos narrativas de aprendizes bem-sucedidos, narrativas de professores que fazem a diferença, de alunos que aprenderam inglês em Escola Pública?, e finalmente, de Escolas Públicas que fazem a diferença?” (BARCELOS, 2011).

O desafio é grande e não pretendo aqui seguir sistematicamente a escrita acadêmica, mas gostaria de escrever a respeito da minha motivação para aprender e estudar Inglês e frequentar um curso de Letras no nível superior e logo vir a ser professor de Língua Inglesa.

Na escola pública onde estudei tive diversas professoras de Língua Inglesa, todas tinham licenciatura dupla onde se podia sair da universidade com habilitação em Língua Inglesa e Língua Portuguesa em cinco anos. Elas eram na época, para mim mero aprendiz de Inglês, quase todas boas, mas por que eu digo isso? Bem, na antiga quinta e sexta séries a primeira professora a me apresentar a Língua Inglesa nem mesmo sorria ou conversava com os alunos. Ela chegava na sala de aula, não cumprimentava, fazia a chamada e ia para o quadro escrever a aula inteira sem dizer uma única palavra. Batia o sinal, ela ia embora.

Na quinta e sexta série as aulas foram sistematizadas, mas nos termos apresentados aqui. Na sétima e oitava série, tive outras duas professoras, uma não explicava quase nada e a outra dizia “Eu não gosto de Inglês, prefiro dar aulas de Língua Portuguesa” e eu logo pensava comigo, “Afinal, por que está aqui tentando ensinar o que não gosta, deve ser infeliz”.

No Ensino Médio voltei a ter aula com a mesma professora da quinta série, desta vez eu estava maior, era um aborrecente, mas um daqueles que ainda com dificuldades se dedicava dentro dos limites existentes na época. Eu já sabia um pouco mais de Inglês porque ouvia muitas músicas americanas que tocavam nas rádios locais e adorava ver os clipes musicais, às vezes sem nem mesmo entender nada.

Havia uma papelaria no caminho para a escola, chamava-se “Caminho do Saber”, confesso que achava este nome muito engraçado . Neste período, passei a estudar à noite para complementar a renda familiar, diga-se que meus pais não tiveram as mesmas oportunidades que eu para terminar os seus estudos, minha mãe e meu pai não terminaram se  quer o Ensino Fundamental. Segundo eles, na época, não haviam muitas escolas perto de casa, as escolas eram muito distantes, era necessário ir a pé, às vezes com fome, sem um calçado, na escola não havia merenda escolar, até os cadernos não dava para comprar porque as suas famílias eram grandes, com doze irmãos em diferentes faixas etárias. Meus pais aprenderam logo que o mais importante para a família era o trabalho para ajudar na criação dos irmãos mais novos e do próprio sustento.

Como eu estava trabalhando e sabia que ali naquela papelaria haviam revistas e jornais e as professoras de Língua Portuguesa gritavam em coro “Leia mais jornais, revistas e livros!”. Passei uma vez e vi uma das minhas bandas favoritas em uma daquelas revistas, no mesmo instante, resolvi comprar porque tinha as letras traduzidas. Achei maravilhoso, pensei “Não preciso mais traduzir as minhas músicas”.

O acesso a internet era algo quase impossível na época, eu nem mesmo sabia usar um computador menos ainda usar a rede mundial de computadores. Desde então, passei a comprar àquelas revistas com as letras, passei a gravar as músicas do rádio em fita cassete para ouvir mais vezes e aprender a pronúncia. Eis a diferença, como eu tinha muita dificuldade em pronunciar, não sabia nem mesmo por onde começar, pedi a minha professora de Inglês para mostrar como eu podia aprender a pronúncia, pois as palavras já sabia o significado, a dificuldade era a pronúncia.

Ela muito gentilmente disse para levar as letras na escola ou na casa dela. Um dia pensei, já que ela disse que podia levar na casa dela, vou levar. Ela escreveu a pronúncia de cada palavra de uma maneira aportuguesada para que eu pudesse entender como deveria pronunciar. Me explicou como deveria ler uma única vez para cada letra. Digamos que insistia nessa pronúncia muitas e muitas vezes enquanto eu não soubesse a música de memória, não desistia. Se fosse necessário, escutaria o dia todo a mesma música.

No terceiro ano do Ensino Médio já estava falando algumas frases, lendo algumas frases e não precisava mais do dicionário o tempo todo para traduzir o texto. Eu precisava sim, mas era para algumas palavras desconhecidas no texto. Neste ano, decidi, “Vou fazer vestibular para Letras Inglês”. Os poucos alunos que queriam fazer vestibular estavam quase convencidos que sem se preparar mais, sem estudar mais, ninguém passaria no vestibular.

Me escrevi e não passei… Poderia desistir, não é mesmo? Mas sou brasileiro e muito teimoso. Fiz de novo vestibular, mas desta vez estudei muito mais. Me sentia mais preparado, então estava convencido que as chances de passar eram muito maiores agora. Passei! Foi um dos poucos momentos de muita felicidade, foi o que eu queria saber mais, aprender mais a respeito da Língua Inglesa. A pergunta inquietante na minha mente desde quinta série era “Por que se escreve de um jeito e se fala de outro completamente diferente?”. Bom, no curso universitário busquei várias vezes por essa resposta. Li muitos livros. Infelizmente ou felizmente, encontrei muitas respostas, mas nenhuma ainda me convence.

Hoje estou formado, faz apenas dois anos e meio que atuo na Educação Básica, nesses poucos anos, tive que ensinar para diversos públicos de crianças a adultos. Atualmente trabalho no EJA também. Os meus maiores desafios sempre foram superar a crença dos meus colegas professores a respeito da aprendizagem de Língua Inglesa. Algumas vezes, tive discussões um pouco polêmicas, principalmente quando tentavam diminuir a importância da minha disciplina diante de disciplinas como a de matemática.

A visão da maioria dos meus colegas foram sempre no sentido de que a matemática tem funcionalidade, aplicabilidade, utilidade e o Inglês não teria, segundo o seu ponto de vista. A pergunta era sempre “Onde eles vão falar Inglês, vão falar com quem?”. Esse questionamento veio de uma professora de Educação Física que já havia lecionado Inglês na mesma escola, o detalhe importante é que ela não tinha formação adequada para lecionar a disciplina. A questão surgiu como protesto porque eu estava falando em algumas aulas quase que exclusivamente em Língua Inglesa a partir do terceiro bimestre. Acreditava ingenuamente que os estudantes já estavam mais preparados para essa exposição, e eu o fiz.

Naturalmente, já havia lido vários artigos de Ana Maria Ferreira Barcelos porque participei por três anos do programa de iniciação científica da universidade. Oportunidade única, porque abriram-se caminhos que antes eram escuros. Muitas vezes de assuntos que eu gostaria de saber mais. Fui apresentado a pesquisa logo no primeiro ano da graduação. Li de novo muito além do esperado. Hoje tenho um vício horrível, ler a literatura científica educacional para tomar decisões com embasamento e não pelo achismo.

De acordo com Diógenes Cândido de Lima no capítulo “Quando o ideal supera as adversidades um exemplo a (não) ser seguido” (CÂNDIDO DE LIMA, 2011) em dois mil e onze o programa nacional do livro didático distribuiria os livros de Língua Estrangeira Moderna pela primeira vez e esse seria um marco importante na Educação Básica porque pela primeira vez o programa atende a essa demanda. Mas o autor faz ressalvas, dizendo que o livro sozinho não resolve todos os problemas.

Estou usando a coleção enviada pelo Ministério da Educação, a obra escolhida é a mesma escolhida por mim em dos mil e dez quando participei do processo de escolha. Percebo que com o uso do livro didático foi possível verificar uma mudança no comportamento dos estudantes, porque estão tendo a oportunidade de falar Inglês. Faço um trabalho árduo, às vezes, exaustivo para que os estudantes possam sim se comunicar em Língua Inglesa na oralidade, na escrita e que consigam compreender os textos.

Os ganhos parecem muito pequenos, mas quando comparo com o início do ano percebo a mudança. No início do ano quando apresentei as avaliações e os motivos para realizá-las os estudantes ficaram assustados justamente com o teste oral. Em coro diziam “Professor, eu não sei Inglês”. Bem, pensei “Será que vale a pena insistir? Estou em uma escola do campo, essas crianças vão falar com quem?”. Sou muito teimoso por natureza, insisti, discuti com coordenadores pedagógicos, com colegas e não desisti.

Na última aula com a sexta série (sétimo ano) tive a felicidade de notar que quando eu disse que faríamos uma brincadeira em que eles teriam que falar Inglês, eu vi a rapidez com que se organizaram, o silêncio para ouvir a orientação e o bombardeio de perguntas para saber “Professor, como eu falo a pergunta, e essa, aquela palavra?”.

No meio da brincadeira acaba a aula. Tenho apenas cinquenta minutos por encontro. “Pessoal, na semana que vem é o teste escrito como já vinha avisando, e na próxima aula depois do teste, vocês terão mais uma aula para conversar em Inglês, ok?”. Eu escutei vários “Yes” e sorrisos. Acho que as coisas estão dando certo. Digo isso porque me submeti a uma avaliação das minhas aulas feita pelos estudantes, onde tiveram a oportunidade de avaliar as aulas, o professor, a turma e realizar uma autoavaliação on-line. Descobri que todos acham a avaliação oral e escrita difíceis.

Agora, estou tentando procurar alternativas, mas todas esbarram em uma dificuldade singular. Na escola, se eu ultrapassar a minha cota de impressão. Tenho que tirar do meu salário a diferença. Tenho direito a apenas uma folha de avaliação por aluno.

Gostaria de concluir que é possível sim ensinar a Língua Inglesa nas escolas Públicas. Mas é preciso formação inicial de qualidade. Graduandos empolgados e dedicados. É preciso de persistência, objetividade e acima de tudo profissionalismo. Sou contra a qualquer entendimento a respeito do profissional da educação como vocação, aptidão, talento ou amor. Não precisamos de nada disso, precisamos de condições de trabalho, de dignidade, profissionalismo, seriedade e dedicação. E nunca se esquecer, pelas mãos do professor passa o futuro de uma comunidade, de uma cidade, de  um estado e obviamente de um país.

Agradeço as questões de Ana Maria Ferreira Barcelos e aos autores de “Inglês em escolas públicas não funciona?” porque além de motivadoras, serviram de reflexão e apoio. Às vezes, parece que estou sozinho na insistência de acreditar que na Escola Pública é possível ensinar a Língua Inglesa.

Referências Bibliográficas

BARCELOS, A. M. F. Lugares (im) possíveis de se aprender inglês no Brasil: crenças sobre aprendizagem de inglês em uma narrativa. In: ­­ Inglês em escolas públicas não funciona? Uma questão, múltiplos olhares. São Paulo: Parábola Editorial, 2011, p. 147-158.

CÂNDIDO DE LIMA, D. Quando o ideal supera as adversidades um exemplo a (não) ser seguido. In: ­­ Inglês em escolas públicas não funciona? Uma questão, múltiplos olhares. São Paulo: Parábola Editorial, 2011, p. 159-170.

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2 comentários sobre “Por Que O Ensino Da Língua Inglesa Em Escola Pública Não Funciona?

  1. Ótimo texto e testemunho!
    Estou lendo os textos deste livro mencionado no texto para as aulas de Estágio na UFSM. Estou estagiando como professor no sexto ano, e espero ensinar mêsmo Inglês e mudar para melhor as cabecinhas cheias de perguntas dos alunos, deixá-los bem motivados para continuar buscando o conhecimento.

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